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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Uma Crônica que rima inspiração




Sabe; desde que me entendo por gente, nunca gostei de escrever nada sobe pressão.  Veja bem, é preciso que eu me explique direito, mas, o fato é que ao menos para mim, a escrita sempre foi sinônima de inspiração. Claro, também devo considerar o fato de que meu professor de teoria de literatura I não está lá muito preocupado com as depressões que minha mente criativa da, só que quando se escreve é sempre bom que não seja em vão. Intimada a fazer uma crônica até a terça feira, digamos que minha cachola, brasileira da gema, ficou até a véspera processando esta minha licitação. Ok, ok, mas não me venha com essa, você sabe muito bem como é amigo... Esqueça os sermões, pois não estou nem um pouco disposto a ouvi-los. Chega. Fui às ruas, o tempo era corrido, peguei o busão ainda vago, mas logo o numero de pessoas crescia esporadicamente enxotadas naquele espaço de latão. Desce ladeira, o ônibus balançava e sacolejava, se aproximava da curva derradeira anunciando o triste fim de uma crônica que nem ao menos começara. Só que veja bem, veja as voltas que a vida dá. Sempre quando se precisa aprender, existe alguém disposto a ensinar. É já sei, as rimas também me irritam, só que elas fazem parte.
Lá na Praça da Bandeira, me vem à vista uma cena conhecida. Pedira para entrar no Ônibus, mais uma daquelas pessoas do instituto Manassés. Passava-se pouco das três horas da tarde, digo pelo sol escaldante, pois não estava com relógio. O Esquema deles é conhecido, mas, isso nunca me chamou atenção, talvez por que não me deixo acreditar nesse lance de perdão, nessa onda de ex-bandidos dando uma de filhos de cristo pedindo esmola para ajudar a sua causa. Fiquei observando como ele se desdobrava, entregando entre desculpas e com licenças, para cada pessoa um kit com uma canetinha barata com chaveirinho e lanterna. Já haviam pagado a sua passagem. A principio achei tudo aquilo engraçado. Grande coisa essa que ele fez, de marginal a marginalizado pedindo esmola no busão.
Ofereceu-me então um daqueles kits. Não aceitei. Até que podia, mas, entre confiar e correr o risco de ser enganado, preferi a segunda opção. Como fruto do meu “descompadecimento” parei um pouco e o observei. E é de seu discurso que não me esqueço, algo nele me intrigava. Me pego vendo aquele Homem falando de Jesus, falando da sua dificuldade de conseguir emprego, da sua antiga vida no mundo das drogas. Seus Olhos faiscavam com cada palavra dita. Principalmente quando se falava da família, me pergunto se aquilo tudo era invenção... Ele falava da causa de um jeito convicto, como se a coisa toda estivesse muito difícil mesmo: “Existe tanta gente perdida no mundo meus irmãos, longe de suas famílias, presas no mundo das drogas, por isso lhe peço meus amigos, ajudem com sua pequena contribuição para que possam ajudar a tirar mais pessoas dessa difícil situação”, dava para perceber que ele não era lá muito estudado, mas, nunca deixou de mostrar educação. Viam-se as rugas em seu rosto, pensamentos perdidos... Pensei na família do cidadão. Arrependi-me. Devia ter aceitado aquele kit.
Desde então, passei a observar os movimentos daquele homem. Até que entendi o fato de ele ter sido resgatado das drogas, mas, quanto ao por que de ele está ali pedindo esmola... Há isso ainda não havia entendido. Mais uma vez tentei adentrar na vida do sujeito, me por em seu lugar. Vi-me largado na sarjeta, sozinho, enganado por quem dizia ser meu amigo e me levara para aquele caminho escuro. Pensei nas horas e horas tentando conseguir dinheiro para comprar mais drogas, nos crimes que eu cometeria só por estar naquela situação de escravizado. Poderia até sair daquele mundo, mas, e depois? Será que eu conseguiria voltar a minha vida comum, quando eu estava apenas preocupado com uma crônica numa véspera de entregar o trabalho? Além do arrependimento, fui atingido pela culpa. E os amigos que ele perdeu? E as pessoas que lhe fecharão as portas? Conseguiria eu estudar, quem sabe arranjar algum emprego digno? Lembrei do instituto Manassés, pensei naquele tal de Jesus, disposto a ajudar as pessoas que precisam, sempre ouvi falar dele, mas, nunca havia parado para refletir muito sobre o assunto. O que será que eu encontraria naquele instituto que me faria lutar por uma vida mais digna para pessoas usuárias de drogas? E quanto às pessoas que eu precisaria convencer, essas pessoas que incluem a mim que não sabem o que é passar por dificuldade de verdade. Dificuldade mesmo sabe... Falo de coisas que nos fazem perder a esperança. Que nos tornam bicho sabe... Eu me pego lembrando disso... A vida nunca foi fácil para mim, mas, nunca perdi a esperança, nem a dignidade. Comecei a olhar aquele homem ali na minha frente como um igual. Passei a ver a sua coragem.
Na hora de receber as esmolas, notei as migalhas que lhe deram. Nem dava para comprar uma sacola de pão. Fiquei aflito, pensava que talvez essa frustração o fosse surtar, quem sabe até fazê-lo voltar para a vida do crime... Mas, ele apenas agradeceu. Com o mesmo sorriso, com a mesma educação, com a mesma humildade. Vai ver dentro de toda aquela humilhação ele encontrara alguma valia, só não sabia qual.
Desci no ponto junto com o tal moço, vi quando ele avistou outro colega de igual situação, percebi que ele não estava sozinho, vi abraços de amizade enquanto esperava um ônibus integração.

Pedro Alcino Barbosa Coelho




quarta-feira, 20 de março de 2013

Barco Furado



Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.
Caio Fernando de Abreu

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O viajante e o barqueiro


Um viajante caminhava pelas margens de um grande lago e imaginava uma forma de chegar até o outro lado, onde era seu destino.
Suspirou profundamente enquanto tentava fixar o olhar no horizonte. A voz de um homem de cabelos brancos quebrou o silêncio momentâneo, oferecendo-se para transportá-lo. Era um barqueiro.
O pequeno barco envelhecido, no qual a travessia seria realizada, era provido de dois remos de madeira de carvalho. O viajante olhou detidamente e percebeu o que pareciam ser letras em cada remo. Ao colocar os pés empoeirados dentro do barco, observou que eram mesmo duas palavras. Num dos remos estava entalhada a palavra acreditar e no outro agir.
Não podendo conter a curiosidade, perguntou a razão daqueles nomes originais dados aos remos. O barqueiro pegou o remo, no qual estava escrito acreditar, e remou com toda força. O barco, então, começou a dar voltas sem sair do lugar em que estava. Em seguida, pegou o remo em que estava escrito agir e remou com todo vigor. Novamente o barco girou em sentido oposto, sem ir adiante.
Finalmente, o velho barqueiro, segurando os dois remos, movimentou-os ao mesmo tempo e o barco, impulsionado por ambos os lados, navegou através das águas do lago, chegando calmamente à outra margem.
Então o barqueiro disse ao viajante:
- Este barco pode ser chamado de autoconfiança. E a margem é a meta que desejamos atingir. Para que o barco da autoconfiança navegue seguro e alcance a meta pretendida, é preciso que utilizemos os dois remos ao mesmo tempo e com a mesma intensidade:
“Agir e Acreditar.”

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O tolo que era sábio


Todos os dias Nasrudin ia pedir esmolas na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque:
Mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor. Rapidamente a história correu pelo condado.
Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor. Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse:
- Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será considerado idiota pelos outros.

Nasrudin lhe respondeu:
- O senhor parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque.
E cheio de sabedoria acrescentou:
- Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente. Às vezes, é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito melhor passar por tolo e ser inteligente do que ter inteligência e usar fazendo tolices.
“Os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem!”

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O sábio e o pássaro

 

Conta-se que certa vez um jovem maldoso e inconsequente resolveu pregar uma peça em velho mestre.
- Quero ver se esse velho é realmente sábio, como dizem – pensou – Vou esconder um passarinho em minhas mãos. Depois, em presença de seus discípulos, vou perguntar-lhe se está vivo ou morto. Se ele disser que está vivo, eu o esmagarei e o apresentarei morto. Se ele falar que está morto eu abrirei a mão e o pássaro voará.

Realmente, uma armadilha infalível, como só a maldade e a ignorância podem conceber.
Aos olhos de quem presenciasse o encontro, qualquer que fosse a sua resposta, o sábio estaria incorrendo em erro.
E lá se foi o jovem mal-intencionado com sua armadilha perfeita.
Diante do ancião acompanhado dos aprendizes, fez a pergunta fatal:
- Mestre, este passarinho que tenho preso em minhas mãos, está vivo ou morto?
O sábio olhou bem fundo em seus olhos, como se examinasse os recônditos de sua alma, e respondeu:
- Meu filho, o destino desse pássaro está em suas mãos.
A decisão sobre o que fazer com sua vida sempre está em suas próprias mãos.